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domingo, 26 de dezembro de 2021

O Livre Arbítrio é Falso II

 O Domínio Universal do Pecado Prova que o "Livre-Arbítrio" é Falso

por Martinho Lutero

    Precisamos permitir que Paulo explique o seu próprio ensinamento. Diz ele em Romanos 3.9: "Que se conclui? Temos nós [os judeus] qualquer vantagem {sobre os gentios]? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado".

    Não somente são todos os homens, sem qualquer exceção, considerados culpados à vista de Deus, como também são escravos desse mesmo pecado que os torna culpados. Isso inclui judeus, os quais pensavam que não eram escravos do pecado porque possuíam a lei de Deus. Mas, visto que nem judeus nem gentios têm se mostrado capazes de desvencilhar-se dessa servidão, torna-se evidente que no homem não há poder que o capacite a praticar o bem.

    Esta escravidão universal ao pecado inclui até mesmo aqueles que parecem ser os melhores e mais retos. Não importa o grau de bondade que um homem possa alcançar; isso não é a mesma coisa que possuir o conhecimento de Deus. O que há de mais admirável é sua razão e sua vontade , contudo, é forçoso reconhecer que esta mais nobre porção dos homens está corrompida. Diz Paulo, em Romanos 3.10-12: "Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há um sequer". O significado dessas palavras é perfeitamente claro. Deus é conhecido através da razão e da vontade humana. Porém, nenhum ser humano, somente por sua natureza, conhece a Deus. Precisamos concluir, portanto, que a vontade humana está corrompida e que o homem é totalmente incapaz, por si mesmo, de conhecer a Deus ou de agradá-Lo.

    Talvez alguma pessoa alguma pessoa audaciosa atreva-se a dizer que somos capazes de fazer mais do que de fato fazemos; porém, o que aqui nos interessa é o que somo capazes de fazer , e não o que estamos ou não estamos fazendo. O trecho das Escrituras citado por Paulo, em Romanos 3.10-12, não nos autoriza a fazer tal distinção. Deus condena tanto  a incapacidade pecaminosa dos homens quanto os seus atos corruptos. Se os homens fossem capazes, ainda que o mínimo possível, de movimentarem-se na direção de Deus, não haveria mais qualquer necessidade de Deus salvá-los. Deus permitiria que os homens salvassem-se a si mesmos. Porém, nenhum é capaz de ao menos tentar fazê-lo.

LEIA TAMBÉM: O Livre Arbítrio é Falso II

    Em Romanos 3.19, Paulo declara que toda a boca se calará diante de Deus, porque ninguém poderá argumentar contra o julgamento de divino, visto
que nada existe, em pessoa alguma, digno de ser elogiado pelo Senhor - nem ao menos um arbítrio livre para voltar-se espontaneamente para Ele. Se alguém disser: "Tenho uma capacidade própria, ainda que pequena, de voltar-se para Deus", esse alguém deve estar querendo dizer que pensa que nele há alguma coisa a qual Deus possa elogiar e não condenar. Sua boca não está calada! Mas tal ideia contradiz as Escrituras.

    Deus ordenou que toda boca ficasse calada. Não é apenas certos grupos de pessoas que são culpados diante de Deus. Não apenas os fariseus, dentre o povo israelita, estão condenados. Se isso fosse verdade, então os demais judeus teriam tido alguma capacidade própria para guardar a lei e evitar tornarem-se culpados. Porém, até mesmo os melhores dentre os homens estão condenados por sua impiedade. Estão espiritualmente mortos, da mesma forma que aqueles que, de maneira alguma, procuram guardar a lei de Deus. Todos os homens são ímpios e culpados, e merecem ser punidos por Deus. Essas coisas são tão evidentes que ninguém pode nem mesmo sussurrar uma palavra que as contrarie!

Fonte:

LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. Editora Fiel. 2007. p.19-21.



terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O Livre Arbítrio é Falso I

    Em 1524 Desidério Erasmo, mais conhecido como Erasmo de Rotterdam, escreveu sua Diatribe sobre o Livre Arbítrio. Em resposta a dissertação de Erasmo que era a favor do livre arbítrio, Martinho Lutero escreveu para Erasmo, em 1524, uma resposta intitulada originalmente como A Escravidão da Vontade e publicada no Brasil sob o título Nascido Escravo. 
    Tanto Erasmo como Lutero foram homens notáveis em conhecimento e gigantes em seu tempo (séc. XVI), o pensamento desses homens contribuiu grandemente para forjar e alavancar a cultura ocidental. No entanto, sendo Lutero, reformador e Erasmo, humanista, acabaram entrando neste embate acadêmico, no qual o primeiro condenava o livre arbítrio, enquanto o segundo defendia.
    O texto abaixo é um resumo da primeira argumentação de Lutero em Nascido Escravo.

    A Culpa Universal da Humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso.

    Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça". Se todos os homens possuem "livre-arbítrio", ao mesmo tempo em que todos, sem exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os está conduzindo a uma única direção - da "impiedade e da iniquidade". Portanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus. 
    Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não seguir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá entender  que algumas pessoas não "detêm a verdade pela injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens. 
    Além do mais, notemos o que Paulo escreveu imediatamente antes dessas palavras. No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é "o poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem implicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis divinas em seus mínimos detalhes, mas isto não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas isto em nada os aproximava de Deus. Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu "livre-arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles.

    Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se revela". Assim, Deus mostra a sua retidão aos homens. Mas Ele não é tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, ninguém jamais seria salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é ensinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Homem-Deus, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado pelos profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios os levou a deixarem de buscar a justiça divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores se tornam as coisas.

    Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos - um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. Ninguém tem capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar-se a eles. Se fosse possível descobrir a verdade por meio do "livre-arbítrio", certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores condenados juntamente com todos os demais homens. Ora, se todos os homens são possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados, então esse suposto "livre-arbítrio", é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre.

Fonte:

LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. Editora Fiel. 2007. p.19-21.






quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Minuto Reforma: Lutero pregava o livre-arbítrio?

 Lutero pregava o livre-arbítrio e Calvino a predestinação?

    Quando fiz ensino médio essa foi uma das mentiras que me contaram nas aulas sobre a Reforma Protestante. Disseram que Calvino pregava a predestinação, enquanto Lutero o livre-arbítrio, mas isso não é verdade, ambos, assim como Agostinho, defendiam que Deus elege e predestina o homem. 

    Lutero dizia que a "única preparação infalível para a graça [...] é a eleição eterna e a predestinação de Deus". E quando afirmaram que esse ensino transformava Deus num ogro arbitrário, Lutero respondeu (com o Apóstolo Paulo), "Deus assim o quer, e porque ele o quer, isso não é perverso".[1]

    Martinho Lutero também participou de um importante debate com o humanista holandês Erasmo de Rotterdam. Erasmo defendia o livre-arbítrio. A resposta do reformador alemão encontra-se em português no livro intitulado Nascido EscravoEnquanto Erasmo, o moralista, dizia:"Deixem Deus ser bom". Lutero rebatia dizendo: "Deixem Deus ser Deus".[2]

Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora,
alcançastes misericórdia.
(1 Pedro 2.9-10)





FONTES:
[1] GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. Vida Nova.  78 p.
[2] Ibdem.

domingo, 20 de abril de 2014

Fruto do Espírito, Evidência da Predestinação


 Fruto do Espírito, Evidência da Predestinação
    Sou presbiteriano, ouço o ensino da predestinação desde a minha infância, e por mais ensino que exista sobre a doutrina dos Decretos Eternos de Deus é costumeiro ouvir alguns irmãos dizerem, enchendo o peito, a seguinte exclamação: “Eu sou predestinado!”.

   Não há problema algum em você dizer de si mesmo que é um predestinado* – desde que você seja um. A grande questão, que é a causa da minha indignação neste texto, é que boa parte dos que gritam para todo mundo ouvir “– Eu sou predestinado!” geralmente o fazem para mascarar uma vida pecaminosa, como se dessa frase emanasse algum poder mágico que sopra em suas mentes o seguinte pensamento: “Não importa o que eu faça, que tipo de vida eu leve; se estou ou não em comunhão com Cristo e com a Igreja, Deus não tem escolha, afinal ele já me elegeu ao Paraíso, assim, faça o que eu faça a Terra Prometida já me pertence”. Tomados desse pensamento muitos caminham mesmo preordenados ao fervente Lago de Fogo destinado para o Diabo e seus anjos, ao invés da Eternidade com Deus.

   Os verdadeiros eleitos de Deus para a salvação depositam a sua confiança exclusivamente em Cristo, na certeza de que ele nos elegeu antes da fundação do mundo a fim de nos livrar das nossas más obras; da nossa pecaminosidade já providenciando antes da fundação do mundo as boas obras e o fruto do Espírito Santo, afim de que os seus eleitos andassem neles. Assim diz Paulo aos Efésios: “Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor... desvendando-nos o mistério da sua vontade segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.” (Ef 1.4,9,11) e ainda: “Pois fomos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Ef 2.10).

   Em Gálatas 5, o Apóstolo Paulo nos apresenta uma lista de atributos que possuem aqueles que são de fato predestinados de Deus. Essa lista é chamada de Fruto do Espírito e a compõe as seguintes qualidades individuais: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.” (Gl 5.22,23) e conclui afirmando, “se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5.25). Não há como viver em Cristo e continuar andando nas trevas, não há como servir a dois senhores, não há a possibilidade de andar no Espírito e passar uma vida inteira produzindo frutos podres.

   Como disse, existem muitos na igreja gritando aos quatro ventos: “ – Eu sou predestinado!”, quando suas conhecidas obras são: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas...” (Gl 5. 20,21). Para estes a conclusão de Paulo é clara: “...não herdarão o reino dos céus os que tais coisas praticam” (Gl 5.21). 

   Não somos salvos pelas boas obras, mas certamente, como eleitos de Deus, elas nos
foram postas em nossas mãos a fim de que nós as executemos, e assim, a glória de Cristo seja manifesta a este mundo.

Guilherme Barros